segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Caeté: o novo governo e o Gandarela




O jornal Opinião trouxe semana passada a notícia que o prefeito eleito, Zezé Oliveira, procurou a Vale para levar o apoio do seu futuro governo ao Projeto Apolo de exploração mineral da empresa na Serra do Gandarela.  Boatos pré-eleitorais já davam conta que Zezé Oliveira teria sido um dos primeiros candidatos a procurar a Vale em busca de apoio para a sua candidatura e o fato, se confirmada a veracidade dos rumores, configura-se simplesmente como uma troca de favores, com todas as implicações que isso possa trazer, haja vista a influência das grandes empresas, como a Vale, nas esferas governamentais e a recorrente subserviência do Estado em suas  relações com as corporações. Quando se poderia pensar que um novo governo municipal colocaria a questão do projeto Apolo em outro patamar, constata-se o continuísmo da política do governo que sai e que não deixa saudades, já que tratou a questão ambiental sob uma ótica míope e descolada da urgência que se apresenta á realidade do mundo atual. Parece que a construção ideológica da mineração como única redenção do município executada pelo governo Ademir de Carvalho em seus dois mandatos, desprezando outras alternativas e a capacidade do caeteense em abrir caminhos (o fechamento da Barbará é um exemplo) contaminou o pensamento estreito de nossos políticos, que não vislumbram nenhum futuro fora disso.  A mineração configura-se como uma atividade arcaica, mesmo travestida de atributos de modernidade, até mesmo os engenhos de açúcar do Brasil colônia, resguardados tempo e espaço, eram mais avançados tecnologicamente do que uma atividade que se restringe a arrancar produtos naturais do solo e exportá-los sem agregar valor, isso à custa de gigantescos impactos e degradação socioambiental. Reconhecemos que o prefeito recém-eleito já caminhou com o movimento ambiental de forma muito significativa na defesa da Serra da Piedade, mas inexplicavelmente se afastou do diálogo com esse setor e a tônica geral da campanha, que se repetiu com os outros candidatos, era de que o discurso em torno do meio ambiente tirava votos, demonstrando o nível de atraso e ignorância que permeia a nossa sociedade dominada por oligarquias caducas com representantes  em diversos setores que, volta e meia, levantam vozes iradas  contra o movimento ambiental  e seus defensores, alcunhando-o de forma pejorativa como “forasteiros” ou os que são “contra o progresso”. A propósito , qual progresso cara-pálida? Nossa sociedade precisa avançar e romper com conceitos e preconceitos que já não cabem no mundo que vivemos,  a questão ambiental é mais do que urgente e as consequências do modelo econômico no qual estamos inseridos ameaça  a sobrevivência do ser humano e de outras formas de vida e seria ingênuo pensar que Caeté e o Gandarela estão fora disso.  O Gandarela se apresenta como outra possibilidade para Caeté e região, com toda a sua riqueza e multiplicidade de alternativas naturais, econômicas e sociais que abriga em suas dimensões  e ignorar tudo isso, sem ao menos tentar conhecê-las através dos que a defendem, revela mais uma vez, o equívoco de nossos governantes que movidos pelo imediatismo e projetos de poder restringem o futuro e os horizontes de uma cidade e seu povo. Além disso, o Gandarela, por seus atributos hídricos e biodiversos, é de extrema importância para a região metropolitana de Belo Horizonte e Caeté não pode decidir por milhões de habitantes ou mais claramente, o interesse coletivo não pode ser sobreposto pelo interesse privado de uma única empresa e seus acionistas.
Acreditamos sinceramente que podemos avançar com o novo governo municipal em muitas discussões importantes para o nosso município, como por exemplo, a recuperação do papel dos Conselhos Municipais e os novos rumos das políticas ambientais e culturais de Caeté.  O Macaca sempre se colocou na vanguarda a serviço da sociedade e do bem comum, com firmeza e coerência de propósitos e o reconhecimento de muitos nos levam a seguir adiante, ainda mais nesse momento de mudanças tão necessárias e urgentes. A possibilidade de uma fase de relações respeitosas, honestas e democráticas com o novo governo se abre.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O lobo e o cordeiro

O impossível pacto entre o lobo e o cordeiro, artigo de Leonardo Boff

Publicado em julho 12, 2012
Post Festum, podemos dizer: o documento final da Rio+20 apresenta um cardápio generoso de sugestões e de propostas, sem nenhuma obrigatoriedade, com uma dose de boa vontade comovedora mas com uma ingenuidade analítica espantosa, diria até, lastimável. Não é uma bússula que aponta para o “futuro que queremos” mas para a direção de um abismo. Tal resultado pífio se tributa à crença quase religiosa de que a solução da atual crise sistêmica se encontra no veneno que a produziu: na economia.
Não se trata da economia num sentido transcendental, como aquela instância, pouco importam os modos, que garante as bases materiais da vida. Mas da economia categorial, aquela realmente existente que, nos últimos tempos, deu um golpe a todas as demais instâncias (à política, à cultura e à ética) e se instalou, soberana, como o único motor que faz andar a sociedade. É a “Grande Transformação” que já em 1944 o economista húngaro-norteamericano Karl Polanyi denunciava vigorosamente. Este tipo de economia cobre todos os espaços da vida, se propõe acumular riqueza a mais não poder, tirando de todos os ecossistemas, até à sua exaustão, tudo o que seja comercializável e consumível, se regendo pela mais feroz competição. Esta lógica desequilibrou todas as relações para com a Terra e entre os seres humanos.
Face a este caos Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU, não se cansa de repetir na abertura das Conferências: estamos diante das últimas chances que temos de nos salvar. Enfaticamente em 2011 em Davos diante dos “senhores do dinheiro e da guerra econômica”declarou:”O atual modelo econômico mundial é um pacto de suicídio global”. Albert Jacquard, conhecido geneticista francês, intitulou assim um de seus últimos livros:”A contagem regressiva já começou?”(2009).
Os que decidem não dão a mínima atenção aos alertas da comunidade científica mundial. Nunca se viu tamanha descolagem entre ciência e política e também entre ética e economia como atualmente. Isso me reporta ao comentário cínico de Napoleão depois da batalha de Eylau ao ver milhares de soldados mortos sobre a neve:” Uma noite de Paris compensará tudo isso”. Eles continuam recitando o credo: um pouco mais do mesmo, de economia e já sairemos da crise. É possível o pacto entre o cordeiro(ecologia) e o lobo(economia)? Tudo indica que é impossível pois o lobo sempre devorará o cordeiro.
Podem agregar quantos adjetivos quiserem a este tipo vigente de economia, sustentável, verde e outros, que não lhe mudarão a natureza. Imaginam que limar os dentes do lobo lhe tira a ferocidade, quando esta reside não nos dentes mas em sua natureza. A natureza desta economia é querer crescer sempre, a despeito da devastação do sitema-natureza e do sistema-vida. Não crescer é prescrever a própria morte. Ocorre que a Terra não aquenta mais esse assalto sistemático a seus bens e serviços. Acresce a isso a injustiça social, tão grave quanto a injustiça ecológica. Um rico médio consome 16 vezes mais que um pobre médio. Um africano tem trinta anos a menos de expectativa de vida que um europeu (Jaquard, 28).Face a tais crimes como não se indignar e não exigir uma mudança de rumo? A Carta da Terra nos oferece uma direção segura :”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal…para alcançarmos um modo sustentável de vida nos níveis local, nacional, regional e global”(final). Mudar a mente implica um novo olhar sobre a Terra não como o “mundo-máquina” mas como um organismo vivo, a Terra-mãe a quem cabe respeito e cuidado.
Mudar o coração significa superar a ditadura da razão técnico-científica e resgatar a razão sensível onde reside o sentimento profundo, a paixão pela mudança e o amor e o respeito a tudo o que existe e vive. No lugar da concorrência, viver a interdependência global, outro nome para a cooperação e no lugar da indiferença, a responsabilidade universal, quer dizer, decidir enfrentar juntos o risco global.
Valem as palavras do Nazareno:”Se não vos converterdes, todos perecereis”(Lc 13,5).
 
Leonardo Boff é autor com Mark Hathaway, O Tao da Libertação, explorando a ecologia da transformação,Vozes 2012.
* Artigo originalmente publicado por Leonardo Boff em seu blogue pessoal.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ato Público em defesa do Gandarela



O Movimento Artístico, Cultural e Ambiental de Caeté (MACACA) e o Cineclube Corisco se uniram para realizar o ATO PÚBLICO EM DEFESA DA CRIAÇÃO DO PARQUE NACIONAL SERRA DA GANDARELA. O evento tem por objetivo, além do apoio à criação do parque na sua proposta original, discutir a participação da Vale no Consórcio Norte Energia – grupo de empresas envolvidas na construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte – projeto este que se caracteriza pelo aproveitamento hidrelétrico em terras indígenas que ameaça reduzir a vazão da região da Volta Grande do Rio Xingu e que pode acarretar a morte de inúmeras espécies de peixes, gerar fome; isolar comunidades, alagar 516 km² de Floresta Amazônica; gerar uma onda migratória na região de Altamira (PA), aumentar o índice de violência, prostituição, alcoolismo e tráfico de drogas; e consumir em torno de R$ 30 bilhões de dinheiro público numa obra de engenharia ineficiente, gerando uma energia cara e destruidora. Assim como no Xingu, a vida de inúmeras espécies na Serra do Gandarela está sendo ameaçada. A empresa Vale ao pretender implantar o Projeto Apolo reduzirá drasticamente as áreas de cangas que são elementos naturais importantes na manutenção da quantidade e da qualidade das águas que abastecem toda Região Metropolitana de Belo Horizonte, além de gerar impactos importantes com a barragem de rejeitos a ser alocada nas cabeceiras do Ribeirão do Prata (que hoje tem água classe 1 e classe especial) e outros impactos sociais como a violência, o tráfico de drogas e a prostituição infantil. Diante desse atentado contra a vida, dizemos NÃO AO PROJETO APOLO, NÃO À USINA DE BELO MONTE! VIVA OS POVOS DO XINGU! VIVA A SERRA DO GANDARELA! VIVA À VIDA! VIVA O DIREITO À ÁGUA!

PROGRAMAÇÃO DO ATO:

18:30 - Exposição fotográfica sobre o Parque Nacional da Serra do Gandarela.

19:00 - Estreia do filme em Caeté. Para a exibição contamos com a autorização do diretor do filme, André D’Elia, que se sensibilizou com a causa da Serra do Gandarela.

BELO MONTE – ANÚNCIO DE UMA GUERRA
ANO: 2012
ORIGEM: Brasil
DIREÇÃO: André D’Elia
PRODUÇÃO: CINEDELIA
CLASSIFICAÇÃO: Livre

SINOPSE: Documentário sobre a maior obra de engenharia do país da atualidade, na qual depoimentos a favor e contra Belo Monte apontam para um desastre do ponto de vista ambiental, econômico e social. Belo Monte é uma usina hidrelétrica que o governo pretende instalar no coração da Amazônia, na Volta Grande do rio Xingu na cidade de Altamira, Pará. O documentário “Belo Monte, Anúncio De Uma Guerra” é um projeto independente e coletivo a respeito desta obra, que foi filmado durante 3 expedições à região do rio Xingu. Trata-se de material riquíssimo sobre os bastidores da mais polêmica obra planejada no Brasil, com imagens de alto impacto e entrevistas com os principais envolvidos na obra, incluindo lideranças indígenas (como o Cacique Raoni e Megaron), o Procurador da República (Dr. Felício Pontes), o Presidente da FUNAI (Márcio Meira) e políticos locais a favor da construção da Usina.

20:45 – Bate-papo com os membros do MACACA, movimentos sociais e a comunidade para tornar mais claro as consequências da implantação do Projeto Apolo numa área tão importante para o futuro.

ENTRADA GRATUITA. DIA 23/06/2012 ÀS 18:30 no pátio interno do Museu Regional de Caeté.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A ausência de uma nova narrativa na Rio+20


A Rio+20 traz poucas esperanças para a terra e seus habitantes, exceto em relação à Cúpula dos Povos, que faz o contraponto às propostas pouco consistentes e sob orientação econômica dos mercados que os governos defendem.

Leiam no link abaixo um ótimo artigo de Leonardo Boff sobre o tema:

http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5621

domingo, 10 de junho de 2012

Quem acredita em relatórios de sustentabilidade ambiental?l

Todos os anos as grandes empresas divulgam seus relatórios de sustentabilidade, fora a linguagem inacessível para grande parte dos leitores, isso é, os poucos que se dispõem a isso, o mais comum é o discurso contradizer a prática.

Leonardo Sakamoto faz uma interessante análise a respeito disso, vejam no link abaixo:
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/06/10/rio20-descascando-as-historias-que-as-empresas-contam/